{"id":995,"date":"2025-06-10T01:45:27","date_gmt":"2025-06-10T04:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/?page_id=995"},"modified":"2026-01-11T17:41:12","modified_gmt":"2026-01-11T20:41:12","slug":"verbete-irmandade-nossa-senhora-do-rosario-de-sao-joao-del-rei","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/verbete-irmandade-nossa-senhora-do-rosario-de-sao-joao-del-rei\/","title":{"rendered":"Verbete: Irmandade Nossa Senhora do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: <a href=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/participante\/silvia-brugger\/\">Silvia Br\u00fcgger<\/a> e Bruna In\u00eas Carelli Mendes<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">HIST\u00d3RICO:<\/h4>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>A Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei foi fundada em 1708 e sua primeira capela data de 1719, congregando fi\u00e9is a esta devo\u00e7\u00e3o, em especial, escravizados, libertos e seus descendentes. A igreja atual teve sua constru\u00e7\u00e3o iniciada em 1751. A irmandade abrigou diversas devo\u00e7\u00f5es negras, al\u00e9m de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, Santo Elesb\u00e3o, Santa Efig\u00eania, S\u00e3o Benedito, Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios e Santo Ant\u00f4nio de Categerona. Embora na associa\u00e7\u00e3o achem-se filiados escravizados e libertos de diversas proced\u00eancias, as clivagens \u00e9tnicas se manifestavam nas devo\u00e7\u00f5es sufragadas. Al\u00e9m disso, no interior da irmandade constituiu-se pelo menos uma congrega\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, na virada do s\u00e9culo XVIII para o XIX: a autointitulada \u201cNobre Na\u00e7\u00e3o Benguela\u201d, que em 1803, adquiriu casas pr\u00f3prias, constitu\u00eddas como o \u201cPal\u00e1cio Real de toda Nobre Na\u00e7\u00e3o Benguela\u201d, na qual podiam se reunir seus membros, praticar rituais pr\u00f3prios e guardar os apetrechos de sua corte, formada por duques, marqueses, reis e rainhas. Nessa Irmandade, assim como em muitas outras em diversas regi\u00f5es, realizavam-se festas anuais em louvor \u00e0 Senhora do Ros\u00e1rio, com a presen\u00e7a de reis, rainhas e suas cortes, remetendo a pr\u00e1ticas africanas e europeias, acompanhadas por cortejos com m\u00fasicas e dan\u00e7as. Os cargos de reis e rainhas aparecem definidos no Compromisso da irmandade de 1841. No de 1787, o mais antigo existente no arquivo, esses cargos n\u00e3o s\u00e3o mencionados, existindo os de juiz e ju\u00edza. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o existissem as figuras reais, mas elas n\u00e3o foram assim nomeadas no compromisso. Em 1896, os termos de rei e rainha foram substitu\u00eddos pelos de prior e prioriza, por solicita\u00e7\u00e3o da confraria. Em uma publica\u00e7\u00e3o no Jornal \u201cO Resistente\u201d, de quatro de setembro de 1896, explicava-se a mudan\u00e7a: \u201cporquanto tal dignidade religiosa [reis e rainhas], que em tempos idos se justificava pela exist\u00eancia do Reinado ou Congado &#8211; hoje era uma excresc\u00eancia de significa\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel.\u201d Percebe-se, portanto, que no final do s\u00e9culo XIX, as festas do Ros\u00e1rio organizadas pela Irmandade j\u00e1 n\u00e3o se faziam com a presen\u00e7a dos reinados ou congados. No entanto, em 1909, uma carta assinada pelo prior e pelo secret\u00e1rio da Irmandade solicitavam ao Bispo de Mariana a volta das designa\u00e7\u00f5es de rei e rainha para os cargos de comando da institui\u00e7\u00e3o, \u201cpor ser essa a vontade da maioria dos confrades\u201d. A solicita\u00e7\u00e3o foi atendida e demonstra a for\u00e7a que a designa\u00e7\u00e3o real possu\u00eda para os irm\u00e3os do Ros\u00e1rio. Ao que tudo indica, essas mudan\u00e7as de designa\u00e7\u00e3o refletiam disputas no interior da Irmandade, vinculadas \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e religiosas do per\u00edodo e a um processo progressivo de branqueamento da associa\u00e7\u00e3o, expresso, por exemplo, na elimina\u00e7\u00e3o dos reinados das festas e \u00e0 sua compreens\u00e3o como uma \u201cexcrec\u00eancia intoler\u00e1vel\u201d. Sintom\u00e1tico o fato de a proposta de troca da designa\u00e7\u00e3o de rei pela de prior ter sido feita pelo pr\u00f3prio rei da confraria na \u00e9poca, o pol\u00edtico conservador, redator e dono do jornal \u201cO Arauto de Minas\u201d, cr\u00edtico contumaz dos chamados \u201cfolguedos populares\u201d, deputado na Assembleia Provincial, Severiano Nunes Cardoso de Resende. Se durante muito tempo a Irmandade do Ros\u00e1rio abrigou pr\u00e1ticas e cren\u00e7as religiosas de matrizes africanas, apropriadas e recriadas em uma institui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX essas formas de devo\u00e7\u00e3o e ora\u00e7\u00e3o precisaram progressivamente buscar outros espa\u00e7os para se manifestar. Em nome dos avan\u00e7os da \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, a cidade e a Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio afastaram os reinados para a periferia da cidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"716\" height=\"477\" data-id=\"999\" src=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/igreja.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-999\" srcset=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/igreja.png 716w, https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/igreja-300x200.png 300w\" sizes=\"(max-width: 716px) 100vw, 716px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Igreja do Ros\u00e1rio, em novembro de 2021. Foto: Danilo Ferretti.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"> <strong>CITA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading alignwide\"><\/h4>\n\n\n\n<p>\u201cJo\u00e3o Machado Alves Fontes e Jo\u00e3o Tom\u00e1s Ferreira Guimar\u00e3es pretos forros que servimos nesta Nobre Na\u00e7\u00e3o de Benguela. Certifico e por termos f\u00e9 em como estas casas \u00e9 (sic) da Nobre Na\u00e7\u00e3o de Benguela declarando que os ditos compradores Jo\u00e3o Machado Alves Fontes e Jo\u00e3o Tom\u00e1s Ferreira Guimar\u00e3es compraram estas casas com o dinheiro das esmolas que tiramos entre os irm\u00e3os forros e cativos e do que est\u00e1 estabelecida por Pal\u00e1cio Real de toda a Na\u00e7\u00e3o de Benguela e por os ditos compradores serem forros \u00e9 que \u00e9 que est\u00e3o por cabe\u00e7a desta compra n\u00e3o porque sejam donos e possuidores como seus porque foi a custa e finta entre todos que consistem os cativos desta nobre na\u00e7\u00e3o e n\u00e3o poder\u00e3o dispor nem vender as ditas casas sem a na\u00e7\u00e3o toda junta fazerem Mesa e Haver por bem e para clareza entre todos que achamos presente mandamos lavrar os presente termo que assinaram os da dita na\u00e7\u00e3o que se acham presente dado e passado em o Real Pal\u00e1cio. Aos 30 de Novembro de 1803 anos (&#8230;).\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Termo de Registro de Compra das Casas adquiridas pela Nobre Na\u00e7\u00e3o Benguela. Arquivo da Par\u00f3quia de Nossa Senhora do Pilar de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, Certid\u00f5es de Missas da Nobre Na\u00e7\u00e3o Benguela, 1803.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"307\" height=\"409\" src=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-09-232709-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1001\" style=\"aspect-ratio:3\/4;object-fit:cover\" srcset=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-09-232709-3.png 307w, https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-09-232709-3-225x300.png 225w\" sizes=\"(max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">                             P\u00e1gina de abertura do Livro de Certid\u00f5es da Nobre Na\u00e7\u00e3o Benguela, 1803.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Pra\u00e7a Embaixador Gast\u00e3o da Cunha | Centro | S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, MG | 36300-084 | Brasil |<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">REFER\u00caNCIAS:<\/h4>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>BR\u00dcGGER, S.M.J e OLIVEIRA, A.J.M. de. \u201cOs Benguelas de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei: tr\u00e1fico atl\u00e2ntico, religiosidade e identidades \u00e9tnicas (s\u00e9culos XVIII e XIX). Revista Tempo. Niter\u00f3i: UFF, n.26, 2009.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>SANTOS, Luciana M. dos. Reis do Ros\u00e1rio: poder e rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas na Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (cc 1840-1909). Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado defendida junto ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UFSJ. S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, 2016.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>ALMEIDA, Marcelo Crisafuli N. \u201cFolguedos do Povo\u201d e Partida Familiar: A m\u00fasica e suas manifesta\u00e7\u00f5es populares em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (1870-1920). 2010. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. S\u00e3o Jo\u00e3o del- Rei, 2010.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>SOUZA, Daniela dos Santos. Devo\u00e7\u00e3o e identidade: o culto de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios na Irmandade do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei \u2013 s\u00e9culos XVIII e XIX. 2010. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado apresentadas ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Silvia Br\u00fcgger e Bruna In\u00eas Carelli Mendes HIST\u00d3RICO: A Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei foi fundada em 1708 e sua primeira capela data de 1719, congregando fi\u00e9is a esta devo\u00e7\u00e3o, em especial, escravizados, libertos e seus descendentes. A igreja atual teve sua constru\u00e7\u00e3o iniciada em 1751. 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