{"id":1326,"date":"2025-09-07T22:54:15","date_gmt":"2025-09-08T01:54:15","guid":{"rendered":"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/?page_id=1326"},"modified":"2025-10-30T15:22:43","modified_gmt":"2025-10-30T18:22:43","slug":"lugares-de-memoria-negra-em-sao-joao-del-rei","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/lugares-de-memoria-negra-em-sao-joao-del-rei\/","title":{"rendered":"Lugares de Mem\u00f3ria negra em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por <a href=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/participante\/silvia-brugger\/\">S\u00edlvia Maria Jardim Br\u00fcgger<\/a> e <a href=\"https:\/\/mg.passadospresentes.com.br\/cidades-negras\/participante\/danilo-ferretti\/\">Danilo Jos\u00e9 Zioni Ferretti<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto \u201cLugares de Mem\u00f3ria negra em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei\u201d nasceu da conflu\u00eancia da trajet\u00f3ria de pesquisa de dois professores do Decis-UFSJ: S\u00edlvia Br\u00fcgger e Danilo Ferretti. A ele se uniu a pesquisa de mestrado realizadas por Tayane Oliveira sobre o of\u00edcio da benzedura em S\u00e3o J\u00f5\u00e3o del Rei. No in\u00edcio do projeto havia, de um lado, o interesse na hist\u00f3ria e cultura de afrodescendentes no Brasil, pela profa. S\u00edlvia Br\u00fcgger. Ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o, no mestrado e doutorado, a professora pesquisou sobre o per\u00edodo escravista brasileiro, em especial, sobre as rela\u00e7\u00f5es familiares nos s\u00e9culos XVIII e XIX. No doutorado, abordou a import\u00e2ncia da fam\u00edlia na regi\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei. Em suas pesquisas, as fam\u00edlias de escravizados e seus descendentes ocuparam papel relevante. Sua experi\u00eancia pessoal, ao se mudar para a cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, em fins do s\u00e9culo XX, trouxe-lhe um inc\u00f4modo: como entender a consensual afirma\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica de ter sido Minas a maior prov\u00edncia escravista do Imp\u00e9rio &#8211; com S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, cabe\u00e7a da Comarca do Rio das Mortes ocupando papel de destaque neste cen\u00e1rio &#8211; e, ao mesmo tempo, a percep\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia manifesta\u00e7\u00f5es culturais negras na cidade. Aos poucos, a professora foi percebendo a forte presen\u00e7a dessas manifesta\u00e7\u00f5es em \u00e1reas perif\u00e9ricas da cidade, como no bairro do Senhor dos Montes e do S\u00e3o Dimas. Os detentores dessas manifesta\u00e7\u00f5es culturais j\u00e1 vinham tamb\u00e9m em luta, buscando afirmar sua presen\u00e7a no centro da \u201ccidade hist\u00f3rica\u201d. A partir de ent\u00e3o, a professora passou a desenvolver projetos de extens\u00e3o e pesquisa, em parceria com grupos da comunidade, como o Ra\u00edzes da Terra, por exemplo. O problema n\u00e3o era, portanto, a aus\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es negras, mas o seu encobrimento por uma mem\u00f3ria e hist\u00f3ria oficial da cidade. Em pesquisas mais recentes, a professora focou sua aten\u00e7\u00e3o aos grupos de congado da regi\u00e3o das Vertentes, buscando analisar as mem\u00f3rias da escravid\u00e3o e da liberdade expressas nas m\u00fasicas entoadas pelos grupos, bem como a trajet\u00f3ria dos sujeitos e suas rela\u00e7\u00f5es familiares no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. As inquieta\u00e7\u00f5es sobre a invisibiliza\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o negra na cidade foram o mote para a proposi\u00e7\u00e3o do trabalho em parceria com o Professor Danilo.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, havia o interesse na hist\u00f3ria da mem\u00f3ria e da escravid\u00e3o, pelo prof. Danilo Ferretti. Desde o doutorado suas pesquisas j\u00e1 se direcionavam para a quest\u00e3o dos usos do passado em geral e especificamente do passado das expedi\u00e7\u00f5es de escraviza\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas por colonos paulistas, heroificados a partir do s\u00e9culo XIX como \u201cbandeirantes\u201d. Ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, tal interesse de desdobrou em pesquisas sobre a rela\u00e7\u00e3o dos intelectuais oitocentistas brasileiros e a escravid\u00e3o: das condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de seus escritos, at\u00e9 o modo como representavam a escravid\u00e3o, passando pela inser\u00e7\u00e3o em redes de sociabilidade e os encaminhamentos futuros que propunham para a institui\u00e7\u00e3o. Tratou especialmente da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria oitocentista e seu tratamento do tema escravid\u00e3o. O tema da mem\u00f3ria j\u00e1 a\u00ed se vislumbrava, pois algumas obras liter\u00e1rias continuaram a ser vendidas no s\u00e9culo XX, ajudando a moldar o modo de entendimento da experi\u00eancia da escravid\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a vivenciaram, em casos exemplares de manifesta\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria cultural. Disciplinas ministradas na UFSJ consolidaram esse investimento no tema da mem\u00f3ria. Nelas eram discutidas tanto os principais referenciais te\u00f3ricos da \u00e1rea, quanto os temas candentes na sociedade brasileira, destacando-se o da mem\u00f3ria da escravid\u00e3o e sua rela\u00e7\u00e3o com a luta antiracista contempor\u00e2nea. Aplicando tal reflex\u00e3o \u00e0 cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, ficava patente que essa cidade, que se apresenta nacionalmente como \u201chist\u00f3rica\u201d, pouca visibilidade deu ao protagonismo de homens e mulheres descendentes de africanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, Tayane Oliveira teve seu interesse despertado para a pr\u00e1tica de benze\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das mem\u00f3rias de sua av\u00f3 materna Ana, uma mulher negra, que era benzedeira. A sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u00e9 desenvolvida atrav\u00e9s da Hist\u00f3ria do Tempo Presente, que \u00e9 um campo da historiografia que se caracteriza pela aproxima\u00e7\u00e3o&nbsp; temporal com o objeto hist\u00f3rico, com os sujeitos contempor\u00e2neos. E ao trabalhar com a Hist\u00f3ria do Tempo Presente \u00e9 preciso estar atento para a subjetividade do historiador no exerc\u00edcio da escrita hist\u00f3rica. \u00c9 necess\u00e1rio explicitar de onde ele fala, para tornar mais transparente seu of\u00edcio. Dessa forma, sua escrita historiogr\u00e1fica est\u00e1 marcada por esses dois lugares sociais, o de historiadora e o de neta benzedeira.<strong> <\/strong>Esses dois lugares convergem a fim de construir um sentido para as lacunas do passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As mem\u00f3rias de sua av\u00f3 sobre a pr\u00e1tica de benzedura se juntaram a outras mem\u00f3rias de benzedores da cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. A partir de suas trajet\u00f3rias de vidas, se prop\u00f4s uma investiga\u00e7\u00e3o acerca das pr\u00e1ticas curativas, do processo de forma\u00e7\u00e3o de suas identidades e da transmiss\u00e3o desse conhecimento&nbsp; atrav\u00e9s de suas viv\u00eancias religiosas, de suas mem\u00f3rias e hist\u00f3rias de vida. O estudo \u00e9 realizado em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, a cidade tricenten\u00e1ria, marcada por tradi\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es religiosas diversas nos fornece um substrato para se pensar como as pr\u00e1ticas de benzedura se configuram na cidade, e a forma como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o dos benzedores com seu p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A oralidade tem um papel essencial na transmiss\u00e3o desses valores e conhecimentos, pois corresponde ao caminho pelo qual os benzedores ingressam por esse of\u00edcio de vida.&nbsp; A tradi\u00e7\u00e3o oral empregada na pr\u00e1tica de benzedura representa um v\u00ednculo afetivo com a pessoa que ensinou aos benzedores o of\u00edcio da cura. Representa o v\u00ednculo com o passado,&nbsp; com os costumes,&nbsp; mas tamb\u00e9m com sua identidade. Al\u00e9m das ora\u00e7\u00f5es que s\u00e3o repassadas, os benzedores carregam consigo devo\u00e7\u00f5es, religiosidades que se manifestam a partir das viv\u00eancias e vis\u00f5es de mundo desses sujeitos. E a forma como cada benzedeira ou benzedor manifesta seu exerc\u00edcio de f\u00e9 e cura no presente, representa o modo como se conectam com seu passado.<\/p>\n\n\n\n<p>A conflu\u00eancia das linhas de pesquisa  de Tayane, Silvia e Danilo, os dois \u00faltimos colegas de departamento, foi possibilitada pela realiza\u00e7\u00e3o do \u201cI Semin\u00e1rio P\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o e Hist\u00f3ria P\u00fablica da UFSJ\u201d, em maio de 2019, nas depend\u00eancias da UFSJ, em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, organizada pela profa. S\u00edlvia B\u00fcgger, Tayane Oliveira e outros membros do Projeto Passados Presentes. Nele emergiu a ideia de um esfor\u00e7o conjunto de identifica\u00e7\u00e3o e pesquisa de lugares de mem\u00f3ria negra em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, tendo tal proposta sido feita pela profa. S\u00edlvia em plena \u201cFesta de Maio\u201d, ao som dos tambores da Congada e Mo\u00e7ambique de Piedade do Rio Grande.<\/p>\n\n\n\n<p>Adiado pela pandemia, em 2023 ambos os professores formalizaram o projeto que passou a ser desenvolvido no \u00e2mbito do Laborat\u00f3rio da Imagem e Som (Lis) da UFSJ. Ele deu origem a dois projetos de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, desenvolvidos entre setembro de 2023 e setembro de 2024, sob edital da PROEN, em que a aluna Bruna In\u00eas Carelli Mendes foi orientada pela profa. S\u00edlvia Br\u00fcgger e a aluna Giovana Guimar\u00e3es Silva pelo prof. Danilo Ferretti. Tais iniciativas se integram ao projeto mais amplo, \u201cPassados Presentes; patrim\u00f4nios e mem\u00f3rias negras e afro-ind\u00edgenas em Minas Gerais\u201d, coordenado pela Profa. Hebe Mattos (UFJF) e pelo Prof. Jo\u00e3o Paulo Lopes (IFSUDESTEMG), aprovado na Chamada do CNPq no. 40\/2022 \u2013 Projetos em Rede. Nele se consolidou a uni\u00e3o do projeto apresentado pelos professores S\u00edlvia e Danilo, com a pesquisa desenvolvida por Tayane Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste projeto busca-se reverter a aus\u00eancia de marcos memoriais no espa\u00e7o p\u00fablico relativos \u00e0 experi\u00eancia negra na cidade. Surgida da explora\u00e7\u00e3o do ouro no s\u00e9c XVIII, S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei recebeu intensa popula\u00e7\u00e3o de africanos escravizados por mais de dois s\u00e9culos, que, juntamente a seus descendentes, foram e s\u00e3o agentes imprescind\u00edveis da hist\u00f3ria da cidade. Desde os anos 1920, difundiu-se uma imagem nacional de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei como \u201ccidade hist\u00f3rica\u201d, mas pouqu\u00edssimos s\u00e3o os marcos espaciais do passado que tornam vis\u00edvel a atua\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra sanjoanense. Este projeto de extens\u00e3o visa a pesquisa, a difus\u00e3o de seus resultados e a futura marca\u00e7\u00e3o p\u00fablica de tais lugares como uma pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica diante da viol\u00eancia da escravid\u00e3o e suas heran\u00e7as, como o racismo e a relativa invisibilidade da experi\u00eancia de negras e negros. Os projetos de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica citados se dedicaram \u00e0 pesquisa bibliogr\u00e1fica e documental que resultaram na elabora\u00e7\u00e3o de verbetes informativos referentes a um total de 16 lugares de mem\u00f3ria negra na cidade. S\u00e3o eles: Tenda de Umbanda Pai Joaquim de Angola; Associa\u00e7\u00e3o Afro Brasileira Casa do Tesouro (Egbe Il\u00ea Omidewa As\u00e9 Igbolayo); Terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Omoloc\u00f4 Ti Ox\u00f3ssi Ogbani; Il\u00ea Ax\u00e9 Omin In\u00e3 Opar\u00e1 Oju Aganju; Il\u00ea As\u00e9 Omin Insaba Dil\u00e9; Irmandade de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio; Confraria de S\u00e3o Gon\u00e7alo Garcia; Pelourinho; Morro da Forca; Gr\u00eamio Recreativo Escola de Samba Bate-Paus; Orquestra Lyra Sanjoanense; Orquestra Ribeiro Bastos; Banda Theodoro de Faria; Grupo de Incultura\u00e7\u00e3o Afrodescendentes Ra\u00edzes da Terra; Festa e capela do Ros\u00e1rio do Bairro S\u00e3o Dimas e respectivo catop\u00e9; Festa do Divino Esp\u00edrito Santo; Congado e Catop\u00e9 S\u00e3o Benedito e S\u00e3o Sebasti\u00e3o.&nbsp; A eles foram adicionados os verbetes elaborados&nbsp; por Tayane Oliveira, a saber: Benzedeiras e benzedores; benzeduras e benzimentos; Quebranto; Cobreiro; Aguamento; Coser jeito; Ventre-virado. Tais verbetes ser\u00e3o disponibilizados para consulta livre no site do projeto \u201cPassados Presentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratamento destes lugares de mem\u00f3ria negra permite a realiza\u00e7\u00e3o de alguns deslocamentos gerais na forma como se configura a autoidentifica\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria e a hist\u00f3ria oficial sanjoanense. Para uma cidade que se v\u00ea, desde pelo menos os anos 1930, como \u201ca cidade dos sinos\u201d, cuja autoimagem \u00e9 marcada fortemente pela centralidade do catolicismo, com destaque para sua modalidade barroca, os verbetes permitem, primeiramente, ir al\u00e9m de tal identifica\u00e7\u00e3o, trazendo ao primeiro plano a presen\u00e7a de manifesta\u00e7\u00f5es religiosas de matriz africana tradicionalmente invisibilizadas. Tais s\u00e3o os casos dos verbetes sobre a Tenda de Umbanda Pai Joaquim de Angola; Egbe Il\u00ea Omidewa As\u00e9 Igbolayo; Il\u00ea Ax\u00e9 Omoloc\u00f4 Ti Ox\u00f3ssi Ogbani; Il\u00ea Ax\u00e9 Omin In\u00e3 Opar\u00e1 Oju Aganju; Il\u00ea As\u00e9 Omin Insaba Dil\u00e9. Todos indicam que a \u201ccidade dos sinos\u201d \u00e9 tamb\u00e9m a cidade dos atabaques e que a vida religiosa de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei, h\u00e1 tempos, \u00e9 mais complexa e diversa que um cen\u00e1rio de exclusivo catolicismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os lugares de mem\u00f3ria negra pesquisados permitem tamb\u00e9m reconsiderar a natureza dessa pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e barroca local. Eles o fazem ao destacar, no interior deste universo, o protagonismo negro, marcado por maior diversidade \u00e9tnica, apropria\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas criativas e resist\u00eancias \u00e0s restri\u00e7\u00f5es sociais e devocionais que lhes eram impostas, conforme atestado pelos verbetes sobre a Irmandade do Ros\u00e1rio e a \u201cNobre Na\u00e7\u00e3o Benguela\u201d, a Confraria de S\u00e3o Gon\u00e7alo Garcia e, tratando de manifesta\u00e7\u00f5es mais recentes, da Festa do Divino Esp\u00edrito Santo, do Congado e Catop\u00e9 S\u00e3o Benedito e S\u00e3o Sebasti\u00e3o e da Festa e Capela do Ros\u00e1rio do bairro S\u00e3o Dimas. Por esses verbetes indicamos que a cultura do barroco, que marca t\u00e3o fortemente a autoidentifica\u00e7\u00e3o sanjoanense, tem sua compreens\u00e3o amputada se n\u00e3o considerar as manifesta\u00e7\u00f5es do catolicismo negro que a constitui e complexifica. Ela t\u00eam nos africanos e seus descendentes agentes centrais, tanto no passado das irmandades quanto na recria\u00e7\u00e3o presente feita nas festas, congados e catop\u00e9s dos bairros populares. Em v\u00e1rios casos tais manifesta\u00e7\u00f5es populares estabelecem um di\u00e1logo intenso entre as pr\u00e1ticas cat\u00f3licas tradicionais e as religi\u00f5es de matriz africana, destacando a\u00ed o protagonismo de mulheres negras, conforme atestam, al\u00e9m de alguns terreiros, das festas e congados citados, tamb\u00e9m os verbetes sobre as pr\u00e1ticas de benzedura difundidas na cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento da autoimagem sanjoanense consolidada que os lugares de mem\u00f3ria negra permitem redimensionar \u00e9 aquele que apresenta a cidade como \u201cber\u00e7o da liberdade\u201d, \u201cTerra de Livres\u201d. Tal vis\u00e3o, intensificada no per\u00edodo republicano, quando trata do passado local destaca com quase exclusividade a rela\u00e7\u00e3o da cidade como palco da Inconfid\u00eancia Mineira, valoriza personagens a ela ligados (B\u00e1rbara Heliodora, Alvarenga Peixoto) e tem seu ponto alto na reivindica\u00e7\u00e3o de ser lugar de nascimento de Tiradentes, figura central tornada her\u00f3i em \u00e2mbito nacional. Tal vis\u00e3o do passado local se estende at\u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o do ex-presidente eleito Tancredo Neves como continuador, no passado mais recente, dos valores de liberdade dos Inconfidentes. Os verbetes sobre o Pelourinho e o Morro da Forca contrastam com essa vis\u00e3o parcial e lembram que a liberdade n\u00e3o foi atributo de todos. Eles recordam o quanto a viol\u00eancia da escravid\u00e3o marcou a hist\u00f3ria de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei e de Minas Gerais, importantes centros escravistas at\u00e9 a d\u00e9cada de 1880. Indicam tamb\u00e9m o processo complexo de transmiss\u00e3o da mem\u00f3ria da escravid\u00e3o na cidade, com suas ressignifica\u00e7\u00f5es e apagamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dos lugares de mem\u00f3ria negra pesquisados permitem, por fim, tra\u00e7ar a participa\u00e7\u00e3o criativa de negras e negros na busca de sua liberdade e cidadania, muitas vezes por meio da atua\u00e7\u00e3o cultural. Neste ponto, eles ressignificam outro tra\u00e7o de autoidentifica\u00e7\u00e3o local, que apresenta S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei como \u201ccidade da m\u00fasica\u201d. Os verbetes sobre as orquestras Lira Sanjoanense, Ribeiro Bastos e a banda Theodoro de Faria refor\u00e7am o reconhecimento, consolidado desde pelo menos a d\u00e9cada de 1970, da centralidade de afrodescendentes na din\u00e2mica musical da que projetou a cidade, desde o s\u00e9culo XIX, como \u201ccentro de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d e cultura. Indicam a presen\u00e7a negra em institui\u00e7\u00f5es onde nem sempre tal presen\u00e7a foi reconhecida, como na orquestra Ribeiro Bastos e, em menor escala, na banda Theodoro de Faria e no Gr\u00eamio Recreativo Escola de Samba Bate-Paus, a mais antiga agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca da cidade. Indicam os modos pelos quais a produ\u00e7\u00e3o cultural foi meio importante de reconhecimento cultural e inser\u00e7\u00e3o social de negros na cidade. Neste processo destaca-se o verbete sobre o Grupo de Incultura\u00e7\u00e3o Afrodescendentes Ra\u00edzes da Terra, em que a uni\u00e3o da a\u00e7\u00e3o cultural com a reivindica\u00e7\u00e3o direta por direitos da coletividade negra atinge patamar in\u00e9dito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acesse o link abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DJSRHyQNP3y\/?igsh=Y3U3dXRpdDhodWdk\">https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DJSRHyQNP3y\/?igsh=Y3U3dXRpdDhodWdk<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por S\u00edlvia Maria Jardim Br\u00fcgger e Danilo Jos\u00e9 Zioni Ferretti O projeto \u201cLugares de Mem\u00f3ria negra em S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei\u201d nasceu da conflu\u00eancia da trajet\u00f3ria de pesquisa de dois professores do Decis-UFSJ: S\u00edlvia Br\u00fcgger e Danilo Ferretti. 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